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Sanção reabre debate sobre pirataria no Chile

Por Gustavo González*

Os Estados Unidos castigaram o Chile por não proteger suas patentes, sobretudo farmacêuticas. A União Européia também tem esse país na mira.

SANTIAGO, 22 de janeiro (Terramérica).- Embora o Chile seja seu melhor sócio comercial na América do Sul, os Estados Unidos aplicou a esse país sanções, argumentando que não protege a propriedade intelectual, o que reabre o debate sobre o acesso eqüitativo aos medicamentos e as pressões da indústria farmacêutica. Ernesto Benado, diretor da não-governamental Corporação Nacional de Consumidores e Usuários (Conadecus), disse ao Terramérica que este conflito faz ressurgir a questão da vigência das patentes a longo prazo, fazendo com que os remédios mantenham “preços exorbitantes”.

No dia 8 de janeiro, a representante de Comércio do governo de George W. Bush, Susan Schwab, anunciou que o Chile foi colocado em uma “lista de vigilância prioritária” por não possuir medidas efetivas para resguardar a propriedade intelectual de produtos farmacêuticos, musicais, cinematográficos e na área de informática. A sanção, que coincide com o terceiro ano de vigência do Tratado de Livre Comércio (TLC) entre os dois países, implica uma queda do Chile dentro dos três níveis aplicados pelos Estados Unidos: “lista de vigilância”, para casos menos graves, “vigilância prioritária”, para situações preocupantes, e “lista de países prioritários”, para casos graves. O Chile é o único país sul-americano que tem vigente um TCL com os Estados Unidos.

Ao anúncio norte-americano de sanções, seguiram-se declarações de preocupação de parte da União Européia (UE), que insiste para que o Chile ratifique o Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT) que, embora devesse ser subscrito antes de 1º de janeiro, ainda não foi enviado ao Poder Legislativo. Em um estudo da Comissão Européia, braço executivo da UE, o Chile figura no quarto lugar mundial em matéria de violação da propriedade intelectual.

O ministro chileno da Economia, Alejandro Ferreiro, assegurou que o governo da presidente Michelle Bachelet cumpre as obrigações do Tratado e considerou “decepcionante” o anúncio de sanções pelos Estados Unidos. Carlos Fourche, diretor de Relações Econômicas Internacionais da chancelaria chilena, disse ao jornal El Mercúrio que há “diferenças de interpretação” sobre o TLC e que é “evidente” a “enorme influência” da indústria farmacêutica norte-americana na decisão do governo Bush.

Benado concorda. “Para o Chile, quando a patente de um medicamento expira, o produto fica livre para ser comercializado como genérico. Por outro lado, os Estados Unidos defendem que a patente pode estender-se, com autorizações para segundos usos”, disse ao Terramérica. “Nossa organização defende os interesses dos consumidores. Acreditamos que em países em desenvolvimento como o Chile não se deveria entregar patentes porque isso significa que os medicamentos chegam ao mercado com preços exorbitantes”, acrescentou o dirigente da Conadecus.

Para Cláudio Lara, especialista em economia política da Universidade de Artes e Ciências Sociais (Arcis), o conflito começou porque, no final de 2003, o governo do então presidente Ricardo Lagos (2000-2006) estava “muito apressado” em assinar o TLC e por isso não negociou adequadamente o último tema, precisamente o da propriedade intelectual. “O país ficou muito exposto”, disse Lara ao Terramérica. Este especialista, entretanto, considera que Bush não está muito preocupado com o Chile, por ser um mercado pequeno, e que, com esta sanção, “quer pressionar o restante dos países da América Latina”, especialmente Brasil e México, para que se subordinem a suas pautas de concessão e vigência de patentes.

Desde a entrada em vigor do TLC, em 1º de janeiro de 2004, o comércio entre Chile e Estados Unidos cresceu 134%, com um balanço favorável à nação sul-americana. Entre janeiro e novembro de 2006, o intercâmbio foi de US$ 13,334 bilhões, dos quais US$ 8,272 bilhões corresponderam às exportações chilenas. O uso das patentes farmacêuticas é um dos temas mais conflituosos nas negociações da Rodada de Doha da Organização Mundial de Comércio, onde países como Brasil, Índia e África do Sul reivindicam o direito de produzir remédios genéricos para controlar doenças de alto impacto social, como a aids (síndrome da deficiência imunológica adquirida).

Em um fórum na Faculdade de Direito da Universidade do Chile, o professor e advogado Gabriel Zaliasnik afirmou que as autoridades chilenas protegem efetivamente a propriedade intelectual, mas alertou que não se caia em excessos que levem a abusos de monopólio, especialmente na indústria farmacêutica. A pirataria de programas de informática, músicas e filmes, o outro aspecto invocado por Schwab para sancionar o Chile, movimenta US$ 182 milhões por ano, segundo estimativas da Comissão Nacional Antipirataria (Conapi), uma rede de organizações empresariais e de artistas.

Desse total, a reprodução e venda ilegal de programas de informática constitui a maior parte, US$ 135 milhões, enquanto a pirataria de música equivale a US$ 30 milhões e a de filmes em DVD a US$ 17 milhões. Fontes da Conapi disseram ao Terramérica que, atualmente, tramitam cerca de 430 processos nos tribunais por atos de comércio ilegal e pirataria, que incluem também a impressão ilegal de livros. A comissão afirma que o Chile perde por ano US$ 160 milhões em impostos que deixam de ser arrecadados devido ao comércio ilegal e à pirataria, do qual participam altos contingentes de desempregados, e que com esta soma seria possível financiar medidas sociais propostas pelo governo cujo custo chega a US$ 140 milhões.

* O autor é correspondente da IPS.


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