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Alerta em águas patagônias |
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Por Marcela Valente*
Um
novo informe adverte que a pesca ameaça pingüins e baleias no Ártico
Sul. Especialistas locais discordam quanto à dimensão do perigo.
BUENOS AIRES, 22 de janeiro (Terramérica).-
Alguns acreditam que foi uma mensagem exagerada, outros dizem quer
serviu para prevenir problemas futuros. Díspares assim, foram as
reações, na Argentina, em torno de um informe que alerta sobre o
impacto da pesca de anchoítas no ecossistema marinho da Patagônia.
Em um artigo publicado no dia 5 de janeiro, na revista Science,
cientistas da argentina Fundação Patagônia Natural e da norte-americana
Universidade de Washington alertaram que a pesca de anchoítas (Engraulis
anchoita) no Atlântico Sul ameaça espécies endêmicas da região que
sustentam o ecoturismo.
Dezenas de milhares de visitantes da Argentina e do exterior chegam
anualmente ao litoral das províncias patagônias de Chubut e Santa
Cruz, atraídos pela possibilidade de avistar baleias, percorrer
reservas de pingüins, lobos-marinhos e elefantes-marinhos, além
de apreciar albatrozes, cormorões ou gaivotas. O artigo adverte
que esse paraíso pode sofrer alteração se continuar a pesca da anchoíta,
que representa 50% da dieta do pingüim de Magalhães (Spheniscus
magellanicus) e é também alimento de merluzas, cormorões, andorinhas,
golfinhos, leões-marinhos e outras dezenas de espécies da região.
O alerta “propõe uma perspectiva integrada do uso do mar, que contemple
a interação entre todas as espécies”, disse ao Terramérica o biólogo
Cláudio Campagna, pesquisador do Centro Nacional Patagônio e especialista
em mamíferos marinhos. Campagna considera que “mundialmente, a pesca
raramente é sustentável, e seu impacto sobre outras atividades e
interesses que dependem dos mesmos recursos não são considerados
na hora de estimar os seus benefícios. O desejável seria modelar
cientificamente o funcionamento do sistema, a fim de poder entender
que efeito teria a extração de espécies críticas em processos que
envolvam a fauna endêmica da costa patagônia”, afirmou o especialista.
Por sua vez, Ernesto Godelman, presidente do não-governamental Centro
para a Defesa da Pesca Nacional (Cedepesca), discorda de tanta precaução.
“Está certo gerar consciência sobre o cuidado do meio ambiente marinho,
mas aqui há algo de superatuação preventiva. A informação disponível
não coincide com o publicado na Science e muito menos com as repercussões
posteriores”, afirmou ao Terramérica. No momento, “não se vê indícios
de que a exploração atual ou planejada de anchoíita patagônia coloque
em perigo a sustentabilidade em sentido amplo, isto é, incluindo
interações tróficas”, ressaltou.
Um estudo do Instituto Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Pesqueiro
(Inidep) diz que, até agora, “a exploração comercial de anchoíta
patagônia não atingiu grandes níveis, estando, em média, em cerca
de duas mil toneladas por ano desde a década de 60”. O volume de
captura está longe do máximo tolerado pelo Inidep para a população
da espécie bonaerense, que vive entre o sul do Brasil e o sul da
província argentina de Buenos Aires, que é de 12 mil toneladas anuais,
e para a patagônia, de cerca de 60 mil toneladas.
“No Inidep somos muito precavidos, e afirmamos que o problema não
é tão dramático”, declarou ao Terramérica um cientista dessa entidade,
que participou das pesquisas mas preferiu o anonimato. A preocupação
com o recurso começou em 2003, quando o Conselho Federal Pesqueiro
aprovou o Plano de Pesquisa para o Desenvolvimento de uma Pesca
Sustentável de Anchoíta Patagônia, proposto pela província de Chubut.
Diante da emergência declarada para a superexplorada merluza comum
(Merlucius hubbsi), a província alertava para o avanço sobre uma
espécie subexplorada.
O plano experimental, prorrogado em 2005, contou com a participação
de funcionários, empresas pesqueiras, técnicos do Inidep e da Fundação
Patagônia Natural. Agora a Fundação afirma que os estudos do Inidep
não incluíram mecanismos específicos para quantificar os efeitos
da pesca de anchoíta sobre peixes e fauna selvagem que dela dependem.
Também expressou seu temor de que o recurso se destine a fabricar
farinha de pescado. A fonte do Inidep respondeu que o organismo
“não estuda em particular o impacto sobre as demais espécies”, mas
que as envolve ao considerar parâmetros como a morte natural de
anchoítas quando outro animal se alimenta delas.
A respeito do temor de que a espécie seja usada como matéria-prima
para a indústria, Godelman explicou que o plano aprovado pelo Conselho
estabeleceu que as empresas participantes “não poderão ter como
objetivo a fabricação de farinha”. O titular da Cedepesca disse
que somente a anchoíta bonaerense se destina a isso, e não na Argentina,
mas no Uruguai. Entre os dois países são capturadas cerca de 70
mil toneladas por ano – em um máximo permitido de 120 mil toneladas
– e a maioria se destina a essa indústria. “Este sim é um problema
a ser acompanhado de perto. A exploração da pesca de anchoíta bonaerense
para fabricar farinha representa um risco real”, assegurou Godelman.
* A autora é correspondente do Terramérica. |