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A Argentina avaliará os efeitos de vazamento na Antártida

Por Marcela Valente*

Apesar de ser leve, o diesel que vazou do navio Nordkapp poderá afetar a biodiversidade do continente gelado, incluídos os pingüins. A Direção Nacional do Antártico da Argentina prepara um estudo a respeito.

BUENOS AIRES, 12 de fevereiro (Terramérica).- O vazamento de combustível de um navio norueguês na Antártida não terá a temida imagem de pingüins cobertos de petróleo. Porém, o impacto não será inócuo para a frágil biodiversidade da região, alertam especialistas. De acordo com o controle realizado pelas bases argentina e espanhola na Ilha Decepción, na margem ocidental da península antártica, o combustível teria evaporado. “Somente se nota restos na praia, e não prejuízos severos”, disse ao Terramérica Mariano Memolli, titular da Direção Nacional do Antártico. Entretanto, Memolli admite que especialistas desse organismo farão “um estudo mais profundo para investigar se existe um impacto maior do que se pode ver à primeira vista”.

O incidente aconteceu no dia 30 de janeiro, quando o navio Nordkapp, com 295 passageiros e 76 tripulantes, encalhou em Fossas do Netuno, uma região rochosa que margeia Decepción. Após o choque, vazou da embarcação entre 500 e 700 litros de diesel, informou a companhia Hurtigruten, operadora do navio. Memolli havia alertado sobre o grave risco que corriam pingüins, orcas e cormorões que habitam essas áreas. Quando as bases confirmaram que o combustível era do tipo leve, aquele cenário ficou descartado, mas não se pode “reduzir a importância deste episódio”, afirmou.

Oscar Amin, biólogo e especialista em Contaminação do Centro Austral de Pesquisas Científicas, explicou ao Terramérica que o vazamento de combustível leve tem vantagens e desvantagens. “O bom é que a maior parte evapora, o ruim é que permanece uma fração muito tóxica que é solúvel em água”. Isso pode afetar algas, pequenos peixes e bivalvos que se alimentam delas, além de aves como os pingüins, que comem esses peixes, ressaltou. Ilha Decepción é uma das Zonas Especialmente Protegidas da Antártida, devido às espécies que abriga e ao interesse científico e turístico que desperta. Trata-se de uma formação de origem vulcânica com uma fauna muito variada e uma enseada de águas termais onde os visitantes podem se banhar.

A Antártida tem superfície de 14 milhões de quilômetros quadrados. O continente é um deserto gelado, pobre em flora e fauna, mas abriga uma rica biodiversidade no litoral, ao qual os animais chegam para se reproduzir durante o verão. Nesse litoral, pode-se apreciar centenas de espécies de líquens e musgos, sete variedades de pingüins (adélia, barbicha, papua, imperador, rei e penacho amarelo) e seis de petréis, além de albatrozes, cormorões, gaviotins¸ gaivotas, skuas e pombas antárticas. O mar abriga centenas de espécies de peixes adaptados a águas geladas, baleias (das espécies dentada, azul, franca, jubarte e mink), grande diversidade de focas (caranguejeira, de Ross, de Weddell), elefantes, lobos e leopardos marinhos, e até as temidas orcas.

“Os ecossistemas antárticos são particularmente frágeis aos distúrbios e possuem uma capacidade natural de recuperação muito baixa”, afirma o estudo intitulado “Atividades turísticas e fragilidade dos ecossistemas antárticos” (2005), feito pelo biólogo Rubén Quintana, do Laboratório de Ecologia Regional da Universidade de Buenos Aires. “Os musgos e líquens resistem ao frio, ao gelo e à seca, mas são muito vulneráveis às pisadas e caso sejam arrancados demoram anos para se recuperar”, acrescenta. Os pingüins são “pouco tolerantes” à presença humana, disse Quintana, recordando a drástica redução dos animais de uma colônia em Cabo Royds, que teve de ser fechada ao turismo. “Os dez mil visitantes anuais que a Ilha Decepción recebe podem alterar as condições deste meio singular”, ressalta.

O biólogo também alerta para o risco de vazamentos de hidrocarbonetos. “Um incremento do tráfego de grandes navios de turismo nos mares antárticos pode aumentar os riscos de vazamento de combustível por acidentes”, disse, recomendando “maior controle para reduzir o perigo”. Em uma reunião realizada no dia 5 deste mês, na localidade austral de Ushuaia, pela Associação Internacional de Operadores de Turismo na Antártida, sua diretora-executiva, Denise Landau, minimizou o acidente dizendo que “foi o primeiro em 45 anos de visitas à Antártida”. Porém, não contou o naufrágio do navio da Marinha Argentina, Bahia Paraíso.

Este acidente aconteceu em 1989, no litoral da Ilha Anvers, onde fica a base norte-americana de Palmer. O navio, que transportava turistas e cientistas, encalhou e foi evacuado antes de afundar completamente. O naufrágio deixou uma mancha de cem quilômetros quadrados em razão da perda de 60 mil litros de óleo combustível. Moluscos, cormorões, pingüins e outras espécies foram vítimas fatais desse desastre. Um estudo do Serviço de Hidrografia Naval da Argentina, realizado em 2001, detectou que, 12 anos depois do acidente, do casco afundado na Bahia Paraíso, continuava ocorrendo uma perda crônica de combustível, que se via na superfície. Diante destes riscos a longo prazo, Memolli afirmou que, no contexto do Tratado Antártico (em vigor desde 1961), a Argentina propôs evitar o impacto acumulativo de visitas em zonas sensíveis como a Ilha Decepción, mas esse debate está apenas começando.

* A autora é correspondente da IPS.


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Direção Nacional do Antártico

Centro Austral de Investigaciones Científicas

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