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Gigante da mineração acumula queixas |
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Por Stephen Leahy*
A
canadense Goldcorp, que irá operar a maior mina de ouro do México,
acumula queixas por violações ambientais. Em Honduras, autoridades
estudam ações contra a mineradora.
TORONTO, 19 de fevereiro (Terramérica).- Um
estudo encomendado por grupos ecologistas encontrou perigosos índices
de chumbo e arsênico no sangue de hondurenhos que vivem perto de
uma controvertida mina de ouro e prata, subsidiária da gigante canadense
Goldcorp Inc., a terceira mineradora do mundo. Segundo os ambientalistas,
sinais de chumbo e arsênico em quantidades superiores às recomendadas
por padrões internacionais (70 ug/dl) foram encontrados em uma mostra
de dez pessoas que moram perto da mina San Martín, no município
de San Ignácio, no central Vale de Siria.
Este estudo, apresentado no ano passado e desconsiderado pela empresa,
é um elemento a mais no processo aberto em Honduras contra a operadora
da mina, que provocou protestos locais e internacionais desde que
foi aberta, em 1999. Embora seja operada pela Entre Mares, empresa
hondurenha subsidiária da canadense Glamis Gold Ltd., agora está
a cargo da Goldcorp Inc., com sede na cidade canadense de Vancouver,
que comprou a Glamis em novembro. Essa aquisição transforma a Goldcorp
na terceira maior produtora de ouro do mundo, com concessões de
mineração em todas as Américas e na Austrália.
Um dos projetos mais ambiciosos da empresa logo terá início no México,
no Estado de Zacatecas, onde obteve todas as autorizações, de forma
muito rápida, em meados de janeiro. Trata-se de Peñasquito, que,
com um custo de US$ 882 milhões e reservas provadas e prováveis
estimadas em 9,98 bilhões de onças, se converterá na maior mina
de ouro do país.
A Goldcorp, que se autoproclama com orgulho “a produtora de ouro
de menor custo do mundo”, mantém várias minas convencionais a céu
aberto, como San Martín, em Honduras, onde é usada uma solução de
cianureto de sódio baseada em água, e que é despejada sobre enormes
pilhas de mineral para separar o ouro. Esta solução é uma toxina
mortal e tem de ser armazenada cuidadosamente. Este processo é comumente
utilizado, mas especialistas ambientais dizem que consome grande
quantidade de água fresca e gera subprodutos altamente tóxicos,
incluindo metais pesados como chumbo, mercúrio e arsênico, que podem
contaminar corpos de água que servem para o consumo humano.
Há muito tempo, os habitantes do Vale de Siria se queixam de problemas
de saúde e escassez de água por causa da mina San Martín, da qual
a Glamis retirou 529.088 onças (cerca de 15 mil quilos) de ouro
desde 2001, num valor aproximado de US$ 412 milhões. Os mais recentes
estudos, que detectaram arsênico (que pode causar graves efeitos
no sistema gastrointestinal, cardiovascular e nervoso), foram encomendados
por grupos ecologistas, entre eles o Comitê Ambientalista do Vale
de Siria, ao ativista italiano Flaviano Bianchini, que fez estudos
deste tipo em vários países da América Central. As provas de Bianchini
foram criticadas por representantes oficiais e da indústria por,
supostamente, carecer de qualidade científica. Em breve, o Ministério
do Meio Ambiente hondurenho pretende enviar amostras a especialistas
na Colômbia para confirmar a contaminação.
“Estamos estudando o caso e vamos esperar os resultados das análises
que solicitaremos à Colômbia para adotar uma medida contundente”,
disse ao Terramérica a ministra Mayra Mejía. “Há evidências fortes
que apontam para uma alta contaminação na região”, disse, por sua
vez, um dos titulares da Promotoria do Estado, Aldo Santos. A Goldcorp
também possui uma mina semelhante, porém mais nova, na Guatemala,
chamada Marlin, também da Glamis, na municipalidade de Sipakapa
e San Miguel Ixtahuacán. Os protestos locais deixaram dois mortos
e muitos feridos.
Entretanto, a companhia nega as acusações. “Operamos as minas San
Martín e Marlin de acordo com padrões da América do Norte”, disse
ao Terramérica Jeff Wilhoit, vice-presidente de Relações com Investidores
da mineradora. No caso da mina Marlin, estudos que mostravam contaminação
do Rio Tzalá “foram refutados e desaprovados” e “as comunidades
mais próximas da mina votaram a favor (da permanência) desta”, assegurou
Wilhoit. Com relação à San Martín, o executivo afirmou que a mina
não provocou desabastecimento de água nem contaminação. “A água
bombeada de nossos poços não tem impacto de nenhum modo no liquido
retirado de poços fora da área do projeto. Não é certo (que haja
doenças devido a dejetos da mina), há um estudo nacional que refuta
esse argumento”, afirmou.
A companhia também refuta denúncias de representantes de comunidades
próximas de San Martín e Marlin, de que nunca foram consultados
a respeito destes dois projetos de mineração. “A Goldcorp é muito
ativa na hora de trabalhar com comunidades onde estão localizadas
suas minas. Contribui imensamente com a educação, a saúde e a segurança
daquelas comunidades que estão pouco representadas por algumas organizações
não-governamentais, que têm suas próprias agendas”, disse ao Terramérica
Melanie Pilon, diretora de Relações com Investidores. Wilhoit acrescentou
que no caso especifico de Marlin, a empresa trabalhou para “incluir
todas as partes interessadas no processo de consulta. Foi dada atenção
especial a como ultrapassar a barreira do idioma. Todas as comunicações
foram feitas em espanhol e mam (idioma originário)”.
Quase 60% das companhias de mineração do mundo são canadenses e
geram mais de US$ 40 bilhões anuais, o que representa cerca de 4%
do produto interno bruto do Canadá. “Os canadenses se horrorizam
ao saber o que algumas empresas de seu país estão fazendo no mundo
em desenvolvimento, mas poucos sabem o que está acontecendo em projetos
de mineração concretos na América do Sul ou outras partes, devido
à limitada cobertura jornalística”, disse Karyn Keenan, da Iniciativa
de Halifax, uma coalizão de ongs ambientais e de direitos humanos
do Canadá.
Entretanto, pouco a pouco aumenta a atenção da mídia, sobretudo
depois que, em 2006, vários representantes de comunidades da América
Latina afetadas pela empresa apareceram em uma série de fóruns públicos
sobre a responsabilidade social corporativa dos setores de mineração,
petróleo e gás do Canadá. “Pela primeira vez, funcionários do governo
do Canadá foram expostos às pessoas que haviam sido prejudicadas
por companhias desse país”, disse Keenan.
Grupos de ativistas alegam, há muito tempo, que a incapacidade ou
falta de vontade dos governos locais para aplicar padrões internacionais
em matéria de direitos humanos e meio ambiente não deveriam dar
às empresas canadenses licença para ignorar estes padrões. Um informe
oficial sobre a regulamentação das operações do setor fora do país
será apresentado ao governo do Canadá em breve.
O informe “não tem precedentes na história canadense”, segundo Keenan,
porque representa um consenso entre ongs, indústria de mineração
e funcionários do governo. “A indústria não quer leis canadenses
fortes e vinculantes sobre suas operações no exterior, mas alguns
sabem que precisam fazer mais do que publicar códigos de ética em
seus sites na Internet”, acrescentou.
Embora o conteúdo do informe permaneça em segredo, espera-se que
recomende a instauração de um mecanismo independente de queixas
e o escritório de um ombudsman (defensor do povo) para investigar
queixas e realizar auditorias de operações de mineração, petróleo
e gás do Canadá no exterior. Não está claro se o conservador governo
canadense agirá a de acordo com as recomendações do informe.
* Com colaborações de Thelma Mejía, de Honduras. |