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Mapuches regressam a terras da Benetton

Por Marcela Valente*

Seis famílias voltam a ocupar um terreno da empresa italiana Benetton, na Patagônia. A companhia ainda não decidiu que ações tomar.

BUENOS AIRES, 26 de fevereiro (Terramérica).- Mapuches da austral Patagônia argentina, que em 2002 protagonizaram um conflito de terras com o grupo têxtil italiano Benetton, voltaram a ocupar um terreno da companhia, reivindicando direitos ancestrais. “Este não é um protesto nem uma ação clandestina. Não pretendemos ser proprietários, mas viver como comunidade em nosso território”, disse ao Terramérica Mauro Millán, prota-voz dos 25 mapuches que desde o dia 14 de fevereiro ocupam o terreno Santa Rosa, na província de Chubut, na Patagônia. São seis famílias que estão construindo suas casas no local, perto de onde foram expulsas há cinco anos.

O terreno, de 534 hectares, fica na fazenda Leleque. Em 1991, a Benetton comprou a Companhia de Terras Sud Argentino (CTSA), dedicada à produção agropecuária, que incluía Leleque e outras estâncias na província. Em um setor da fazenda, a Benetton inaugurou o Museu Leleque, homenagem aos indígenas e a outros pioneiros da região. Porém, os mapuches dizem que não querem se ver como “troféus de uma cultura que destrói o diferente” e reclamam seu direito à terra.

A promotoria de Esquel, cidade mais próxima do terreno, apresentou, esta semana, uma denúncia por usurpação. Entretanto, porta-vozes da companhia asseguraram ao Terramérica que se trata de uma ação de ofício. A empresa considerava esta uma questão encerrada e ainda não definiu uma estratégia legal a ser adotada. A nova comunidade assegura que, antes da criação da CTSA, o território lhes pertencia e que o despojo vem desde essa época. “Isto para nós é um regresso a um espaço territorial comum dos mapuches, onde há cemitérios de nossos antepassados”, disse Millán.

“Desde que nosso povo foi usurpado, os terra-tenentes gozaram de impunidade, de resguardo de sua propriedade privada. Por acaso a neve é privada, o vento, o rio são privados?”, pergunta o proclama assinado pelos mapuches, que alertam que jamais renunciarão a esse terreno. A CTSA foi criada em 1889, por meio de uma concessão de terras do governo nacional a dez cidadãos britânicos, sendo que cada um recebeu 90 mil hectares, passando por cima das comunidades mapuches que viviam no local e que acabaram como mão-de-obra das novas estâncias, entre elas Leleque.

“Pela cosmovisão mapuche, eles têm direitos. O problema é que a terra foi repartida há mais de um século entre particulares, ou seja, não é terra fiscal”, disse ao Terramérica Gonzalo Sánchez, autor do livro “A Patagônia Vendida”. Com a compra da CTSA, a Benetton somou 970 mil hectares na Patagônia e é o primeiro proprietário privado da Argentina. Em 2002, os mapuches Atílio Curiñanco, Rosa Nahuelquir e seus filhos ocuparam o terreno Santa Rosa, convencidos de que era terra fiscal. Porém, a empresa, que usava essa terra para reflorestar, denunciou a invasão e a polícia os desalojou violentamente, destruindo sua precária moradia e suas plantações, e afugentando os animais.

Os mapuches foram denunciados judicialmente por usurpação e uma demanda civil dirimiu o problema da terra. No processo penal, o juiz sentenciou falta de dolo e retirou as acusações, mas no processo civil foi decidido que a terra pertencia à Benetton. “Sempre que levam os povos originários ao plano da suposta legalidade é para nos prejudicar, mas nós temos argumentos para discutir”, disse Millán. Desde aquela expulsão, houve gestões que levaram Curiñanco e Nahuelquir até a Itália, em 2004, pelas mãos de Adolfo Pérez Esquivel, prêmio Nobel da Paz argentino (1980), que conseguiu para eles uma entrevista com Luciano Benetton. Após uma tensa reunião em Roma, o empresário prometeu estudar uma solução para o conflito.

Meses depois, a empresa ofereceu ao governo de Chubut, 7,5 mil hectares em Piedra Parada, uma região de Chubut a 200 quilômetros da estância Leleque. A idéia era destinar essa terra a programas produtivos para famílias mapuches, mas a oferta foi rechaçada. “O governo de Chubut disse que são terras improdutivas”, explicou ao Terramérica Paulo Vázquez, da consultoria internacional Burson Masteller, encarregada da comunicação da CTSA. “É certo que ali é preciso investir, mas é possível reflorestar e criar ovelhas”, assegurou. Agora, Curiñanco e Nahuelquir estão de volta, com outras famílias de sua comunidade, acampando em território que consideram ser de seus ancestrais.

A Benetton ofereceu uma doação. “Tampouco é nossa responsabilidade reconhecer direitos ancestrais sobre terras adquiridas de uma empresa particular”, afirmou o porta-voz da companhia. Segundo Millán, “a idéia da doação foi para limpar a imagem da Benetton, porém jamais foi proposto algo diretamente. Piedra Parada é rica em sítios arqueológicos, um lugar maravilhoso e fértil, mas somente acabou engrossando o imenso patrimônio da empresa”, denunciou. O governo de Chubut, do qual os mapuches reclamam políticas inclusivas, se faz de desentendido nesse caso. “Não intervimos porque não estamos envolvidos; é um conflito com uma empresa privada”, disse ao Terramérica uma funcionária da municipalidade que preferiu o anonimato.

* A autora é correspondente da IPS.


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