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A Amazônia pode converter-se em imensa savana |
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Por Mario Osava*
O
aquecimento global ampliará os efeitos do desmatamento, que pode
transformar em savana até 60% da Amazônia neste século, afirma o
IPCC.
RIO DE JANEIRO, 9 d abril (IPS/IFEJ)- Uma Amazônia
cada vez menos exuberante, de selva substituída por savana, é a
imagem desenhada pelos últimos informes científicos, nos quais ganham
destaque os meteorologistas, agravando as priores advertências dos
ecologistas. Se for mantida a tendência atual, o desmatamento, que
nos últimos 30 anos chegou a quase 600 mil quilômetros quadrados
somente na Amazônia brasileira (área equivalente a Alemanha e Itália
juntas), terá destruído mais de 30% da floresta amazônica em 2050,
diz o novo informe do Grupo Intergovernamental de Especialistas
sobre a Mudança Climática (IPCC, sigla em inglês).
Este processo pode “transformar em savana” (pradarias cobertas de
pastos) até 60% da Amazônia neste século, segundo estudo feito em
2003 por Carlos Nobre e Marcos Oyama, do Instituto Nacional de Pesquisas
Espaciais (Inpe). O aquecimento planetário “ampliará muito” tais
efeitos, diz o IPCC no segundo volume de seu informe 2007, intitulado
“Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade”, divulgado na sexta-feira,
6, em Bruxelas. O informe do IPCC, do qual Nobre é um dos autores,
enfatiza a urgência de conter o desmatamento da Amazônia, que gera
75% das emissões brasileiras de gases causadores do efeito estufa,
responsáveis pela mudança climática.
“O Brasil só pode ganhar com isso”, porque protegeria uma enorme
riqueza futura e lideraria as discussões sobre mudança climática,
disse em uma entrevista Antonio Ocimar Manzi, gerente-executivo
do Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia,
programa de estudos que envolve cientistas brasileiros e estrangeiros.
A temperatura amazônica poderia aumentar, em média, oito graus até
o final do século se forem mantidos os fatores que reaquecem a Terra,
destacou o meteorologista José Antonio Marengo, em um informe apresentado
ao Ministério do Meio Ambiente no final de fevereiro.
Em algumas áreas, a temperatura pode subir até 12 graus, observou
Philip Fearnside, ecologista norte-americano e estudioso da Amazônia
há três décadas, no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
(Inpa). Isso ocorrerá se nada for feito para conter o desmatamento
nem as mudanças climáticas globais, acrescentou. As temperaturas
mais elevadas fazem as árvores consumirem mais água para executar
a fotossíntese, por isso afetam as florestas. Mas, a grande ameaça
da mudança climática é a de tornar permanente o fenômeno El Niño
(o aquecimento periódico das águas do Oceano Pacífico), que se manifesta
com mais calor e longos períodos de escassez de chuva ao norte do
Rio Amazonas, disse Fearnside, outro autor do informe do IPCC.
Isso ocorreu em 1997/98, quando a seca causou incêndios devastadores
no Estado de Roraima. E em 2006, um moderado El Niño reduziu muito
as chuvas ao longo do rio Negro, grande afluente do Amazonas. O
aquecimento global atual, leve em relação ao que se espera, esteve
acompanhado de um aumento da freqüência do El Niño desde 1976. Este
fenômeno será “mais freqüente e mais intenso” se a humanidade não
agir para conter o efeito estufa, afirmou Fearnside em uma entrevista
para este artigo.
Ao sul do Rio Amazonas também há secas, pelo aquecimento das águas
atlânticas. Em 2005, houve incêndios incontroláveis no Acre, que
desenvolve uma reconhecida política de conservação florestal. Os
incêndios são o grande fator da transformação das florestas em savanas.
Outra razão para “a Amazônia estar à beira da savanização” é a existência
de áreas propensas a esse processo, como Santarém, no leste dessa
região, com florestas tropicais mas chuvas quase equivalentes às
de Brasília, que fica no Cerrado, o bioma brasileiro de savana,
explicou Fearnside.
Uma voz isolada, a do respeitado geógrafo brasileiro Aziz Ab’Saber,
de 83 anos, se levantou contra tais prognósticos, prevendo, ao contrário,
maior densidade da floresta amazônica e de outros biomas deste país
com o aquecimento global. O calor aumentará a evaporação do Atlântico,
e a umidade chegará ao continente, incrementando as chuvas, disse
em várias entrevistas concedidas depois da divulgação em fevereiro
do primeiro volume do informe do IPCC.
Ab’Saber, que aplicou a Teoria dos Refúgios para explicar a formação
da floresta amazônica, recorda que há seis mil anos o planeta viveu
um “optimum climático”, com um aquecimento que elevou o nível dos
oceanos depois da era glacial e causou mais chuvas e a “retropicalização”
do Brasil. As correntes quentes do Atlântico se manterão e não foram
consideradas pelo IPCC, criticou o geógrafo. Os demais pesquisadores
evitam a polêmica, mas lembram que os atuais estudos se baseiam
em complexos modelos matemáticos que consideram todas as variáveis,
como experiências passadas e correntes marítimas.
“Os resultados são consistentes” e, talvez, avaliem melhor o “ciclo
da água”, de conhecimento mais recente e pouco considerado por Ab’Sabr,
disse Gilvan Sampaio, pesquisador do Inpe. Quase a metade das chuvas
amazônicas são produto da reevaporação da floresta. O desmatamento
reduzirá a umidade, e o centro-sul do Brasil e partes de Argentina,
Bolívia e Paraguai também sofrerão os efeitos, acrescentou Sampaio
em uma entrevista. “Pelo menos 30% das chuvas no sudeste brasileiro
vêm da Amazônia”, por onde passam os ventos úmidos do leste que
a Cordilheira dos Andes desvia para o sul, explicou.
Porém, a questão das chuvas na Amazônia ainda apresenta “incertezas”,
disse Manzi. A maioria das avaliações também indica mais chuvas
no ocidente amazônico, perto dos Andes, e, portanto, florestas mais
densas. Porém, na Amazônia oriental há dúvidas sobre as previsões
de redução das chuvas. Em geral, os modelos matemáticos apontam
para “climas mais secos do que a realidade”, mas prevêem corretamente
a evolução, reconheceu. Não se pode descartar efeitos menos trágicos
do que os anunciados, que dependem da adoção de medidas, como redução
rápida do desmatamento amazônico, acrescentou.
Desde os anos 70, os fenômenos naturais se tornaram extremos, como
a seca de 2005 no sudeste amazônico. Fearnside destacou a sinergia
entre secas causadas pelo El Niño e o aquecimento das águas atlânticas,
o desmatamento pelo avanço da fronteira agrícola e madeireira e
os incêndios provocados por atividades humanas, seca e calor, que
queimam, sobretudo, as árvores maiores, vitais para manter o microclima
florestal. Tudo contribui para o desmatamento.
* Este artigo é parte de uma série sobre
desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter
Press Service) e a IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas
Ambientais). |