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Frágil trégua no desmatamento de Olancho |
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Por Thelma Mejía*
O
desmatamento não pára no hondurenho departamento de Olancho, apesar
de uma proibição parcial decretada pelo governo dessa área ambiental
da Mesoamérica.
SALAMÁ, Honduras, 16 de abril (Terramérica).-
O assassinato impune de dois ambientalistas hondurenhos de Olancho
e as infrações à proibição de desmatar florestas ameaçam uma precária
trégua nesta região sempre convulsionada pelo desmatamento. “Esta
paz relativa pode ser interrompida a qualquer momento, porque persiste
a impunidade e a proibição parcial decretada para deter o desmatamento
da floresta continua sendo burlada”, disse ao Terramérica a dirigente
humanitária Bertha Oliva, natural de Olancho e fundadora do Comitê
de Familiares de Presos-Desaparecidos.
Desde 1998, morreram seis ambientalistas neste departamento que
ocupa parte do leste, centro e norte do país, com uma superfície
semelhante à de El Salvador e cerca de 2,5 milhões de hectares de
mata com espécies madeireiras de grande valor. Mais da metade de
suas florestas foi cortada. Os elementos que motivaram anos de protestos
dos moradores “ainda vigoram como ontem. As pessoas ressentem que
não há justiça para os autores intelectuais do fuzilamento de dois
ambientalistas, enquanto continua o comércio ilegal de madeira”,
disse Oliva.
Em fevereiro, um pacto foi subscrito por grupos ecologistas contrários
ao desmatamento e cooperativas de madeireiros após o assassinato,
quatro meses atrás, dos ativistas Heraldo Zúñiga e Roger Murillo,
do Movimento Ambientalista de Olancho (MAO). As mortes foram atribuídas
a quatro policiais, colocados à disposição da justiça em março,
depois de intensa pressão de organizações como a Anistia Internacional.
Os madeireiros se reúnem na Cooperativa Primeiro de Maio, cujos
integrantes mantêm uma forte disputa com o líder do MAO, o sacerdote
católico Andrés Tamayo.
Em fevereiro, membros da Cooperativa ocuparam a estrada que leva
a Tegucigalpa, reclamando o fim da proibição do corte de árvores
em vários municípios de Olancho, decretada em 2006 pelo governo
de Manuel Zelaya. Diante dos incidentes e protestos que estiveram
perto de terminar em violência, o governo criou uma comissão encarregada
de conseguir um entendimento, integrada por militares, representantes
do Ministério do Meio Ambiente, do MAO e da Cooperativa Primeiro
de Maio. Desta forma, foi acertada uma trégua. Contudo, se não funcionar,
“estudamos medidas mais profundas para garantir uma paz total” na
região, disse ao Terramérica o Ministro da Defesa, Aristides Mejía.
Em maio do ano passado, o governo determinou a suspensão do corte
de árvores nos municípios de Salamá, El Rosário, Jano, Silca e Manto.
Segundo disse Tamayo ao Terramérica, a mobilização dos camponeses
organizados conseguiu deter o desmatamento em Salamá, Silca, Manto,
El Rosário e Jocón, mas não no restante das comunidades afetadas.
O transporte ilegal de madeira continua, segundo um controle feito
na região pelo estatal Comissariado Nacional dos Direitos Humanos.
As peças cortadas recebem uma mistura de água e cal para esconder
o tom escuro característico da madeira recém-cortada, segundo o
informe desse organismo.
Em Salamá, onde mora Tamayo, grupos de madeireiros organizaram os
moradores em cooperativas contrárias ao movimento ecologista, acrescenta
o documento. Os 24 mil quilômetros quadrados de Olancho abrigam
grande parte da reserva da biosfera do Rio Plátano, declarada Patrimônio
da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação,
a Ciência e a Cultura. A área faz parte do Corredor Biológico Mesoamericano,
uma iniciativa para restaurar a valiosa cadeia florestal da região,
que compreende o sul do México e os sete países da América Central.
Nas florestas de Olancho, há pinus (Pinus oocarpa, entre outras
espécies), caoba (Swietenia machophylla), cedro (Cedrela odorata),
carvalho (como os Quercus sapotifólia, Quercus bumelióides, Quercus
oleóids) e goiabeiras (Psidium Gajava L.). Os camponeses ecologistas
afirmam que o corte está alterando o regime hídrico dos rios da
região. O desmatamento é um grave problema para a Mesoamérica. Os
incêndios, o desmatamento ilegal e a exploração descontrolada provocam
uma redução de 400 mil hectares de florestas por ano, e, se a tendência
não for revertida, em 2015 estas terão desaparecido, afirmavam registros
científicos, de 2002, do Corredor Biológico Mesoamericano.
Olancho tem sido uma região de recorrentes lutas pelos recursos
desde tempos da colônia espanhola. Em meados do século passado,
foi considerada o celeiro da América Central por sua abundancia
de milho, feijão, arroz e sorgo. Entretanto, o desaparecimento dos
incentivos estatais para a agricultura fez a produção diminuir.
Sua população, de pouco menos de meio milhão de habitantes, vive
da agricultura, do comércio, da pecuária e do trabalho florestal.
A pobreza está muito expandida. Nos últimos anos, muitos emigraram
para os Estados Unidos. Porém, o negócio dominante é a floresta.
Em 1997, enquanto liderava uma missão pastoral nas montanhas que
rodeiam a comunidade de Jocón, Tamayo presenciou uma cena inesquecível:
alguns lavradores se preparavam para sepultar um camponês em um
saco de plástico porque não tinham dinheiro para comprar um caixão
e nem madeira para fabricá-lo. “Paradoxalmente, ali havia algumas
serrarias e as comunidades tinham em volta uma grande riqueza florestal”,
contou o religioso ao Terramérica. A partir de então, Tamayo organizou
cerca de 23 comunidades do norte de Olancho contra o comércio ilegal
de madeiras finas.
Esses povoados organizados ficam nos municípios de Manto, Guarizama,
Silca, Salamá, Guata, Jano, Jocón, El Rosário, Mangulil, La Unión
e Esquipulas do Norte. Ali, a defesa da floresta “é um espírito
ardente, como são as queimadas ilegais para extrair madeira”, disse
Oliva. A exportação de madeiras rende ao país pouco mais de US$
50 milhões, e os destinos são Estados Unidos, Caribe e países como
a Alemanha, segundo a Associação de Madeireiros de Honduras. A legislação
florestal é considerada obsoleta, mas uma nova lei, prestes a ser
aprovada, recebe críticas dos ecologistas, que consideram nula a
proteção prevista para as reservas.
A estatal Corporação Hondurenha de Desenvolvimento Florestal, encarregada
de regulamentar o uso das florestas, foi questionada por denúncias
de vínculos de algumas de suas autoridades com empresas madeireiras.
Para o sacerdote jesuíta Ismael Moreno, o poder e a influência dos
“barões da madeira” é de tal ordem, que, em Olancho, “grande parte
dos candidatos a cargos políticos nesse departamento recebem financiamento”
desse pessoal.
* A autora é colaboradora da IPS. |