 |
|
|
Aqüífero paraguaio sangra pela ferida |
|
Por David Vargas*
A
invasão de águas salobras e de esgoto afeta o Aqüífero Patino, um
dos principais recursos hídricos do Paraguai.
ASSUNÇÃO, 7 de maio (IPS/IFEJ).- A paraguaia
Josefina Samaniego não sabia que a água podia ter sabor e cor até
que se mudou para a cidade de Limpio, a cerca de dez quilômetros
de Assunção. O liquido retirado dos poços dessa comunidade de 73
mil habitantes não é inodoro, nem incolor e nem insípido. A água
que Samaniego consome é avermelhada, salina e cheira a terra fresca.
É produto do que os técnicos chamam de salinização do Aqüífero Patino,
um depósito natural de água subterrânea que abastece mais de dois
milhões de pessoas.
O aqüífero Patino abrange 1.173 quilômetros quadrados no sudoeste
da região Oriental do Paraguai. Se estende sob Assunção e sua área
metropolitana, por todo o departamento Central e parte do de Paraguari,
região muito urbanizada e onde residem mais de 38% dos seis milhões
de habitantes do país. É irmão menor do Aqüífero Guarani, de 1,2
milhões de quilômetros quadrados e compartilhado por Brasil, Argentina,
Paraguai e Uruguai, sendo uma das principais reservas de água doce
do planeta. A localização do Patino é seu maior potencial e seu
pior perigo, explica ao Terramérica Elena Benítez, diretora de Recursos
Hídricos da Secretaria do Meio Ambiente (Seam).
A excessiva extração produziu uma queda do nível da água e o aumento
substancial da contaminação. Segundo estudos da Seam, o nível da
água do Aqüífero perde, em média, um metro por ano. A salinização
é resultado direto deste processo e afeta as áreas próximas ao Rio
Paraguai, que divide o país em duas regiões: Oriental e Ocidental
ou Chaco. Está última é árida e com alta salinidade. A redução do
caudal do aqüífero propicia a entrada de uma corrente subterrânea
de água salobra proveniente do Chaco, em uma compensação do déficit.
O problema é menor na capital porque a fornecedora estatal de água,
Empresa de Serviços Sanitários (Essap), se abastece do Rio Paraguai,
diz ao Terramérica Félix Villar, presidente da Associação Paraguaia
de Recursos Hídricos (APRH). O restante dos municípios extrai água
diretamente do Aqüífero, por meio de sistemas comunitários, fornecedores
privados ou poços domiciliares. Calcula-se que na área de influência
do Patino operam cerca de 300 empresas privadas de abastecimento
e há mais de 1, 5 mil poços particulares.
“Demorei para me acostumar, mas agora já quase nem sinto” o gosto,
conta Jerónima Villalba, enquanto tira água de um poço artesiano
de 14 metros de profundidade, em sua casa no assentamento Villa
Flamenco, em Limpio. Villalba é uma das poucas moradoras desse bairro
que ainda tem um poço artesiano. O restante das quase 200 famílias
do local são abastecidos por uma empresa privada, cuja unidade de
bombeamento fica vários quilômetros terra adentro, onde o liquido
“tem melhor sabor”, conta sua vizinha, Victoria Argaña.
Os moradores reclamam de pagar cotas cada vez mais altas às empresas
privadas, que se aproveitam da total falta de controle estatal para
manejar o negócio como bem entende. Samaniego afirma que, no último
ano, sua fornecedora aumentou duas vezes a tarifa mensal, que passou
de US$ 3 para US$ 5. Pode parecer pouco, mas o fornecimento sofre
cortes constantes, que podem durar até uma semana, e a qualidade
do serviço é deficiente, pois a pressão às vezes não basta para
chegar à torneira. Para os técnicos, a salinização é um problema
menor comprado com males mais graves.
“O problema maior é a contaminação”, afirma Félix Carvallo, coordenador
do Estudo de Políticas e Manejo Ambiental de Águas Subterrâneas
na Área Metropolitana de Assunção, que leva adiante o Serviço Nacional
de Saneamento Ambiental (Senasa) e a Seam, com financiamento japonês.
Esta é a única iniciativa governamental destinada a elaborar um
plano de gestão da água. “Contudo, apesar dos esforços, não estão
alcançados resultados positivos”, reconhece Carvallo.
Um estudo da Faculdade de Engenharia da Universidade Nacional de
Assunção alertou, em 2006, para o avanço da contaminação, principalmente
por coliformes fecais. Das cem amostras de água analisadas, 34%
tinham valores acima dos limites aceitáveis para o consumo humano.
“Isto se deve à falta de um sistema de esgoto. As populações do
Aqüífero Patino utilizam latrinas cujos poços cegos deixam vazar
os efluentes, que penetram sob a terra e chegam à água subterrânea”,
explica Carvallo.
Segundo o Senasa, apenas 23% das casas da região do aqüífero estão
ligadas à rede pública de saneamento, enquanto 77% eliminam seus
efluentes em poços cegos que se infiltram no Aqüífero. Outras fontes
contaminantes são os 36 depósitos de lixo distribuídos por toda
a área, cujos líquidos de decomposição orgânica penetram no solo
e chegam à camada de água. Os “poços perfurados são uma janela aberta
à contaminação”, disse Amado Insfrán, da não-governamental Sobrevivência
- Amigos da Terra, entrevistado pelo Terramérica. A falta de registros
e controle dos poços, a crescente quantidade de empresas perfuradoras
e a falta de regulamentação estatal influem para que este recurso
limitado se degrade em capacidade e qualidade, alertou o técnico.
O Parlamento paraguaio estuda um projeto de lei de águas que, segundo
os técnicos, permitirá regulamentar a exploração do recurso. Porém,
empresas e setores produtivos se opõem à lei, pois estabeleceria
o pagamento de direitos de uso e exploração das águas subterrâneas.
“O mais urgente é lutar contra a contaminação e a intrusão salina”,
com medidas concretas como ampliar a rede de saneamento, expandir
a cobertura da Essap e obrigar as empresas a otimizarem seus níveis
de consumo de água, assegura Insfrán. O governo não tem planos a
respeito. Só alguns municípios estudam projetos para instalar esgoto
em seus distritos.
Enquanto isso, o tempo passa para pessoas como Jerónima Villalba.
A cada dia seu poço vai se enchendo de sal. E em pouco tempo terá
de pagar os serviços de abastecimento de uma empresa privada. “Quer
provar?”, pergunta, oferecendo um copo de água tirada de seu poço.
O liquido tem um gosto áspero, que o paladar não reconhece. E acrescenta
em tom de brincadeira: “Imagine que está na praia e bebe um pouco
de água do mar”.
* Este artigo é parte de uma série sobre
desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter
Press Service) e a IFEJ (Federação Internacional de Jornalistas
Ambientais). |